Estamos há muitos séculos organizados em sociedade desta forma. Provavelmente por acreditarmos ser, dentro das hipóteses possíveis, a que mais felicidade nos pode trazer. Claro que também herdámos essa cultura e
abraçamo-la como nossa. A Igreja teve nos últimos séculos uma influência incrível nessa referência cultural pois sempre defendeu que a monogamia propicia a integridade familiar.
Outras
hipóteses estruturais
possíveis seriam a já conhecida poligamia e o mais recente conceito/movimento
Poliamor. O
Poliamor «defende a possibilidade prática e sustentável de se estar envolvido de modo responsável em relações íntimas, profundas e eventualmente duradouras com vários parceiros simultâneamente.»Eu continuo a acreditar que de todas a
hipóteses estruturais, aquela que resulta melhor para a generalidade das pessoas é a monogamia. Isto porque penso que a poligamia é de fundo desequilibrada. Já o
poliamor precisaria de pessoas com uma abertura de mentalidade, uma confiança em si próprias estrondosa, que não fossem ser consumidas pelos ciúmes e inseguranças, de forma a viverem felizes nessa partilha continuada. Acho que já a dois não é fácil o
equilíbrio, quanto mais a 5 ou a 6...
Logo voltei à casa de partida, a Monogamia como opção. No entanto as dúvidas permanecem. Porque há tanta
insatisfação? :)
E aqui acaba a inocência dos contos de fadas, dos
príncipes encantados e do "viveram felizes para sempre".
Não há pessoa alguma nesta terra que vá de encontro a todas as nossas expectativas e necessidades. Podemos encontrar pessoas que amamos imenso e que acabam por
corresponder a grande parte das nossas necessidades e com quem sentimos querer partilhar a nossa vida toda, porque acreditamos poder ser felizes com elas. Serem intelectualmente estimulantes ou serem
meiguinhas, serem aventureiras ou serem desportistas natas, ou serem... as 500 mil coisas que eu adoraria que a outra pessoa fosse. :)
Eu acredito que acabamos por compensar nas nossas amizades as lacunas das nossas relações, de forma a nos sentirmos mais inteiros. Também ao nos dedicarmos às relações, acabamos por investir mais nas partes em comum e deixar as outras um pouco mais de lado.
No entanto quanto mais nos dedicamos à relação, a não deixar que se torne
monótona, igual, desinteressante, quanto mais crescemos em intimidade, menor a
probabilidade de interesses "exteriores" captarem a nossa atenção. No entanto a monogamia é uma convenção, é um compromisso. E vive-se na dança entre a curiosidade pelo novo, pelo desconhecido e o conforto e a realização da intimidade profunda conquistada.
Acho que é uma balança onde pomos de um lado o que temos
construído, e do outro novidades que me estimulam. E opto todos os dias por um dos pratos:
- Enquanto a balança pesa evidentemente para o lado do que temos construído, vivemos tranquilos uma monogamia escolhida e sentida. Não ignorando o que existe, opto por isto, estou feliz aqui.
- Quando a balança mexe e fica ali no meio, pode fazer-nos duvidar, mas assumimos um compromisso que provavelmente nos ajudará a decidir o que fazer. Afinal não vou estragar uma construção com N tempo, por um interesse momentâneo e pouco conhecido. Caprichos da minha curiosidade.
- E ainda pode acontecer da balança pender toda para o outro lado. E quando isso acontece e nada se faz, as pessoas acabam por viver uma monogamia frustrada, onde as opções que fizeram são fardos. Muitas vezes vivem paralisadas nesse estado e não fazem nada para inverter a balança para o que era, nem optam por romper com o passado construído. E acredito que é nestas situação que nascem a grande maioria das traições.
As traições são "quebras" ao código da monogamia, onde pomos em causa a confiança que o outro depositou em nós. Podemos tentar classificar as traições em 2 grupos:
- Sem ligação afectiva:Uma vez ou de forma continuada com diferentes pessoas.
- Com ligação afectiva: Uma vez ou de forma continuada com a pessoa com quem existe a ligação afectiva.
Existem também pessoas com estruturas familiares
monogâmicas que depois internamente resolvem que o melhor para eles casal é terem relações abertas. Uma forma de na estrutura
convencional de
família não abdicarem de explorar novos mundos na sua sexualidade. Isto porque acredito que esse tipo de relação abre espaço no campo sexual, mas não abdica da sua fidelidade no campo emocional. Como é que isso depois funciona na prática, só mesmo conversando com alguém que de facto tenha vivido isso para descobrir.
Tudo isto são opções diárias, umas solitárias, outras a dois. ( ou a 5 ou a 6...
hehehe para os mais ousados)
Para mim o que mais me "assusta" e ao mesmo tempo delicia é saber que o nosso coração tem capacidade de amar imensa gente. De modos diferentes, é certo, mas o nosso coração é tudo menos monogâmico. As paixões, essas sim, levam tudo atrás se deixarmos e fazem-nos pensar 25h/dia na pessoa "amada". Mas as paixões não duram para sempre, o amor, a intimidade, o caminho percorrido esses sim perduram...